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De guarda-livros à mineração de dados, profissão contábil se mantém em alta

A pauta do dia sempre traz questões de tecnologia, e se existe uma profissão que se transforma com a evolução da economia, sem dúvida, essa é a profissão contábil. Regulamentada no Brasil em 1946 pelo Decreto-Lei n.º 9.295, que estabeleceu prerrogativas exclusivas ao guarda-livros, hoje se destaca em um momento em que nem livros temos mais para guardar.

Somos uma das profissões com maior nível de empregabilidade. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 93% dos profissionais formados em Ciências Contábeis atuam no mercado. Um contingente com mais de 500 mil profissionais da contabilidade devidamente habilitados para exercer a profissão, o Brasil chama a atenção no cenário internacional pelo exemplo em organizar e disciplinar o exercício da profissão, contábil estabelecendo diretrizes válidas em todo o território nacional para atender as mais de 20 milhões de empresas no país. Os dados são impressionantes.

Por outro lado, o ônus de uma sociedade que está à margem e muito distante da Contabilidade resulta numa taxa de mortalidade de empresas bastante preocupante, ainda mais em um momento em que se incentiva o empreendedorismo como estratégia de sobrevivência e melhoria da empregabilidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 60% das empresas brasileiras encerram suas atividades em menos de cinco anos. Esses dados impressionam mais ainda.

Neste contexto, a obrigação dos profissionais da contabilidade aumenta significativamente, pois ao assumir a responsabilidade técnica de um novo empreendedor, assume também o desafio de prepará-lo como gestor, pois ainda temos o desgosto de enfrentar um ambiente de negócios burocrático, complexo, com tantas regras fiscais difíceis de entender, e mais complicado de explicar, para quem só quer uma renda e honrar seus compromissos com segurança e tranquilidade.

É consenso que a tecnologia a serviço da Contabilidade muito auxilia, pois possibilita que o profissional da contabilidade se desenvolva aconselhando, inspirando e alertando sobre questões do dia a dia relacionadas à performance e desafios da gestão, como se conselheiro consultivo fosse de todas as empresas que assessora.

O problema é que toda plataforma ou serviço de contabilidade digital foca muito na parte burocrática e quanto mais burocrático for o ambiente, melhor será para quem tem fome e sede em explorar esse mercado fiscal brasileiro.

Contabilidade nada tem a ver com burocracia, nota fiscal ou cálculo de impostos. O governo deveria simplificar, desburocratizar e dar condições gratuitas para que todo empreendedor possa, de forma autônoma, se relacionar com o Fisco sem intermediários.

E se não existisse a nota fiscal? Sabia que no Brasil ela é obrigatória desde 16 de novembro de 1970 pelo Decreto-Lei n.º 1.133 e surgiu com um propósito bem diferente dos dias atuais? Para hoje capturar essa informação bruta se exigem conhecimentos básicos em tecnologia, haja vista a quantidade de ferramentas no mercado pelo fato de o governo não dispor gratuitamente o acesso à informação do contribuinte. Ora, se o dado é público por que premiar novos intermediários em um processo que deveria ser transformado? Qual o sentido dessas plataformas ditas como inovadoras, e que de inovação não trazem nenhum mudança no modelo de gestão, ao contrário, desvalorizam a presença do profissional da contabilidade e colocam os empreendedores à margem de uma consultoria orientativa, comprometendo sobremaneira o seu maior patrimônio, nome no mercado, reservas financeiras e até mesmo a sua credibilidade.

O cenário possível e ideal de ser construído é acabar com a pesada burocracia da nota fiscal. Se em muitos países a emissão da nota fiscal fica a critério de cada empresa, por que isso não pode ser aplicado no Brasil? Nos Estados Unidos, o Internal Revenue Service, um dos departamentos da Receita Federal americana, exige que seja mantido o livro caixa à disposição da fiscalização. Como esse sistema é baseado na honestidade do empresário, pode-se argumentar que haverá sonegação. O ilícito existe, apesar da fiscalização rigorosa no nosso país, e não deve servir de desculpa para continuarmos com um sistema que tem provocado uma guerra fiscal predatória entre os estados brasileiros.

Contabilidade para todos deve estar na ordem do dia. Precisamos nos dar conta que a mortalidade de empresas é assustadora e a maior causa disso é a falta de entendimento de como a Contabilidade é vital para o progresso e segurança do patrimônio tanto de interesse público quanto do privado.

Ilusão é acreditar em plataformas que encantam como o canto da sereia, propondo a substituição do contador, valorizando apenas o que se chama de inteligência artificial e outras funcionalidades que devem fazer parte do dia a dia como facilitadores e não como predadores. Cuidado, porque o barato, no final, sempre sai bem mais caro! Se de graça nem injeção se toma na testa como alguém propõe ao mercado abertura de empresa gratuita? Embora essa atividade não seja uma prerrogativa dos contadores, é muito triste ver o quanto a sociedade fica refém desse tipo de abordagem predatória e de marketing agressivo como se abrir uma empresa fosse comprar um produto em liquidação. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), autarquia federal vinculada ao Ministério da Justiça, que nos proíbe de criar uma tabela de referência de preços, representa toda e qualquer instituição que ameaça a livre concorrência, mas nunca comparece para combater esse tipo de abordagem predatória e que invade de forma inoportuna todos os dias as mídias digitais e de comunicação.

Lembre-se que onde tem ordem tem progresso e onde tem progresso tem contabilidade feita por profissionais devidamente habilitados e registrados com CRC regular, desde a abertura de toda empresa.

Encerro esse artigo inspirada no pensamento do escritor Elbert Hubbard: “Uma máquina consegue fazer o trabalho de 50 homens ordinários. Nenhuma máquina consegue fazer o trabalho de um homem extraordinário”.

Os profissionais da contabilidade são extraordinários. Valorize seu registro profissional, ele é o seu maior patrimônio e tenha orgulho de ter CRC e pertencer a uma das profissões mais respeitadas e valorizadas desde os primórdios da humanidade.

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Artigo escrito por Marcia Ruiz Alcazar

Presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo (CRCSP), contadora CRCSP 160313.